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MÁ DIGESTÃO – online no jornal ETC e TAL –

 

José Luís Montero

Instalou-se a má digestão. Trump assumiu a governação da cabeça imperial. E nós abusamos das carnes vermelhas e das gordurosas. Gostamos de comer toucinho; entremeada; chouriço e bifes altos e mal passados. Depois queixamo-nos que andamos com azia e flatulências. Zumbimos ao ouvido do amigo ou amiga para saber se tem sal de fruta Eno ou talvez uma fatiazinha de abacaxi.

Os amigos, como sempre, nesse momento nunca têm o remédio milagroso, nem um advogado que nos salve dos arrotos. Entramos em crise social. Escondemo-nos; metemo-nos na cama se somos solteiros ou no sofá solitário se somos casados ou vivemos em companhia. A má digestão é uma epidemia tão grave como o loiro que se instalou na Casa Branca.

A má digestão é mais grave que a crise arbitral do Bruno de Carvalho. E é tão grave e levanta muros sociais como Donald Trump deseja içar entre os Estados Unidos de América e o México. É tão perigosa como a presença da Língua espanhola nas páginas web da Casa Branca… A má digestão é má porque o próprio nome assim o indica; mas, sem querer ser faccioso, o Donald Trump é um grande arroto produto da má digestão e um ardor de estômago de quem bebeu uma garrafa de Tequila com ou sem muro.

Agora só nos resta que a CIA ou qualquer outra sigla da espionagem acuda em salvação do Mundo Livre carregada de sal de frutos Eno. Nada seria mais romântico e altruísta que aparecesse outra forma gringa de salvar o Mundo das garras de Lucifer. Até aqui a bota militar anglo-saxónia procurou agulhas no deserto através dos bombardeamentos maciços. Agora, seriam as ações sibilinas e “humanistas” da espionagem que no livrariam da má digestão e do enorme arroto que se instalou globalmente. Donald Trump, homem de gosto surreal no que se refere ao penteado, tornar-se-ia uma espécie de propulsão cosmopolita de uma nova Era. Os poetas fariam sonetos inspirados pela inteligência asnal.

donald trump - cartoon

Por detrás de qualquer patriotismo está “uma aversão; prevenção” perante o outro. Está a xenofobia. Está o badalado muro que pretende separar os Estados Unido do México. Está uma ação que nos diz: “ o outro? Nem vê-lo!” Vivemos no século posterior ao vertiginoso século XX. No ano de 1968 a Universidade de Berkeley lançou ao mundo Marcuse. Paris descobriu que debaixo das calçadas estava a praia. Madrid começou a fazer cocegas nos cascos da ditadura franquista.

O canábis alimentava os grandes gurus da música pop e rock. Através da leitura ou do fumo ultrapassavam-se fronteiras; sonhavam-se muitos mundos que cabiam num só mundo. Chorava-se pelo Vietname. Em Cincinatti odiava-se o Franco e o Salazar. Na Ameixoeira combatia-se o Nixon. O Futebol, diziam as mentes trabalhadas da contestação, era embrutecedor e hoje temos muros, dos mais malditos, que se erguem para separar terras contíguas. Temos futebol, árbitros e Brunos de Carvalhos em tanta abundancia como temos letras numa sopa de letras.

sais de fruta

Má digestão. Azia. Barriga pesada. Flatulências. E o sal de fruta Eno salvador que não aparece… Os amigos nunca estão na ocasião certa. Estão a ouvir o Bruno de Carvalho ou a reouvir o discurso de Donald Trump enquanto esperam que o sono os vista de pijama. Mas, quando acordam encontram-se com muros; com o bizarro em forma de escolha democrática. Com Salazares cosméticos que pintam o cabelo de loiro porque não querem que se veja que a sua cabeça está cheia de neve.

E enquanto a Ana Moura me enchia a casa com o Fado: Leva-me aos Fados, fui acordado pelo telefone. Uma voz rouca soletreou: “ Acabou de morrer o Mário Soares…”Não imaginei nada, nem visionei ou pensei sobre a Morte maiúscula. Não entrei em Metafísicas. Mas, a poderosa máquina dos Mídias levou-me até ao Norton de Matos; até a 1.ª República; até ao Humberto Delgado; até ao Palma Inácio; Salgado Zenha; Almeida Santos; Manuel Alegre; ao Colégio Moderno e a todas a casas do Mário Soares.

E todos diziam bem e chamavam-lhe “Pai da Democracia”. Pensei: mais outro herdeiro… Mas, também apareceu o Álvaro Cunhal. E estranhei que não aparecesse um dos autores do atentado ao Salazar: o anarco-sindicalista Emídio Santana. Mas, apareceram a Amália e o Eusébio. Depois vi passar o cortejo fúnebre com honras de Estado. Fiquei melancólico. Tive a sensação que a minha juventude e adolescência passavam fechadas num baú. Depois vi reis e príncipes; governantes e ilustres. Poetas e burocratas. Pastores e sentinelas. Então, pensei: foi-se o Mário Soares, o homem-político que impactou o coração anónimo na varanda da Estação de Comboios de Santa Apolónia… O 25 de Abril foi Liberdade e também golpes de efeito magistrais.

Fotos: Pesquisa Google

01fev17

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