CONTOS DE UMA PRIMEIRA JUVENTUDE ENLUTADA.

MEDO

josé luís montero

Era Primavera. Passeava com dois colegas pela zona do campo do União de Tomar. Falávamos do que faríamos durante as férias. Estávamos felizes. Fumávamos os nossos cigarrinhos da praxe. Alargávamos os passos como quem pensa que dessa forma alagaríamos o tempo em Liberdade. No entanto, ao fundo, como que saía de uma porta lateral do campo, vislumbramos o prefeito Pinto. Encaminhava-se na nossa direcção. Os cigarros ardiam; o medo crescia. As nossas caras paralisaram a expressão de bem-estar. Algum de nós atirou o cigarro pelo ar e bateu impetuosamente na perna duma criança que brincava alegremente acompanhada da avó. Os restantes, entre eles, eu, ficámos como os cigarros atenazados. O nosso interior clamava aos céus para que a criança deixa-se de chorar. Mas, não; cada vez chorava mais e a avó começou a chamar-nos pelos nomes próprios dos habitantes do inferno. O temível prefeito Pinto estava cada vez mais próximo. O cheiro a castigo era mais forte que o cheiro do tabaco. Olhámos uns para os outros. Inqueríamo-nos com os olhos e as ondas emocionais. Como se um raio cintilante cheio de ideias e soluções nos abraçasse, saímos a correr a sete pés em direcção à ponte. Ouvimos uma voz tremebunda que nos chamava e dizia: venham cá!!!! Sei quem vocês sãooo!!!!!!!!!!! O eco daquelas palavras paralisou-nos os ouvidos e cada vez corremos mais. Paramos no largo da Estação. Matamos o tempo a inventar desculpas. Um de nós, com os olhos esbagaçados, exclamou: DIZEMOS QUE ESTÁVAMOS APOSTAR O LANCHE!!!!… Eu – meio derrotado – respondi: boa! Como máximo o castigo é uma semana de estudos da meia-noite…

Regressamos ao Colégio. O prefeito Pinto não apareceu. Deitámo-nos inquietos, mas, meio salvos. Chegou a segunda-feira. Pelas dez da manhã, creio recordar, tínhamos um recreio de meia hora. O Pinto apareceu cheio de vigor justiceiro. Apanhou-nos no pátio interior onde fizemos um campeonato de luta. Apurou o passo de tal forma que tememos uma trovoada de estalos. Levantou a mão para o colega que tinha à minha direita, mas, ouviu-se uma voz forte, pesada, seca, medida a chamar pelo terror das fugas. O meu colega, encolhido, esperava o impacto. O Pinto olhou e travou o braço. Respondeu: sim, Senhor Doutor… Era o Dr. Raul Lopes que o reclamava. O Pinto deu meia volta e partiu. Não queríamos acreditar em milagres. Pensamos que voltaria com toda a cavalaria. O tempo passou; o Pinto não voltou.

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O MOSTRENGO

josé luís montero

Eram as festas de Maio. O colégio parecia que respirava liberdade. Um colega finalista dizia e dizia no cenário sketches que demoliam o dia-a-dia do colégio. A sala aplaudia com entusiasmo. Era o dia do nosso grito; era o dia da nossa vingança perante tanta e tanta barbárie e bifes de cabedal com arroz encharcado. Nesse dia, o herói não era um forcado, nem o que mais soco dava, nem o mais cruel com a colher de pau: era um “actor”. Repassou desde a falta de água quente às ironias daquela vida sem ironia. Era feliz; sentia-me bem porque naquele cenário dissera-se o que pensava e sentia e porque a vida naqueles dias era outra. Fomos à tourada. Parece-me que comemos melhor. Os prefeitos não chateavam muito (além do Pinto que andava a marrar atrás dos fugitivos.). E fomos ao baile. Andei de um lado para o outro na companhia do Hélder Pataias, do Casquinha e de mais colegas. Éramos felizes. Mas, maldita hora, lembrei-me de uma moça que me fazia corar e separei-me do grupo para tentar sentir o seu perfume durante um pé de dança. Sabia onde estava. Fui, rodeando, até onde se encontrava a moça. Era bonita; coradinha; loira; sorriso tímido. Faltava-me pouco para a poder convidar para dançar quando fez aparição um dos grandes “sádicos” do colégio: o Dete-Dete. O homem que fazia culto à força bruta; o homem que era capaz de desfazer um ponteiro nas costas de um adolescente de primeira idade. Aproximou-se acompanhado pelo Catarino; amigos desde os tempos de Coimbra.

– Olha o Montero!!!

Exclamou bamboleando e rindo para o seu amigo. Mostrava sinais de ter bebido bastante mais do que suportava. Estava bêbado.

-Anda cá!..

Apontando-me com o dedo enquanto via para o Catarino. O Dete-Dete pegou-me pelos ombros como quem abraça. Estranhei-me. O Dete-Dete, além de bêbado, parecia que também podia ser normal. Engano meu…

Virando-se para o Catarino e falando com a brutalidade da sua condição e da bebido e mais que bebido, meio exclamou:

– Pá: este Montero é muito mau….

Fiquei lívido. Aquele cilindro físico com cabeça rapada, mais uma vez, impusera a sua brutalidade. Senti que me estragara a noite e as festas. O Catarino, rapidamente, pegou nele e levou-o para uma esquina enquanto lhe sussurrava:

-Não digas isso. Também é meu aluno.

Fiquei parado. Demorei-me. Vi a moça a olhar-me de esguelha. Não tinha espírito para sentir o seu perfume. Dei meia volta e regressei ao grupo de amigos. Nunca dancei com ela.

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A MINHA HISTÓRIA CNA

José luís montero

Prefácio

Fui parar ao CNA mais por confusão que por outra coisa. Estava num excelente colégio. Era uma quinta cheia de oliveiras; cheia de espaço; de campos; aberta; o limite era um pequeno muro que não tinha um metro de altura que separava da quinta vizinha; com pista de velocidade de atletismo e caixa de saltos; com o melhor ginásio de Portugal onde ia – muitas vezes – treinar a equipa de voleibol do Técnico. Onde vi treinar a selecção checoslovaca de voleibol quando veio a Portugal. Tínhamos excelentes professores. O colégio procurava os melhores e pagava-lhes consoante o seu valor. O elenco de professores de ginástica assustava: Joaquim Grangé; Nuno Barros e Mário Begonha. Todos ex-atletas de alto nível. Não saia do ginásio. Pertencia à equipa de voleibol; pertencia ao grupo de ginástica de Mesa Alemã – fui o membro mais jovem a pertencer ao grupo. – tínhamos técnicas de atletismo com o professor Mário Begonha. E foi neste colégio que tive por primeira vez notícias do CNA. Júlio César, meu colega e amigo, natural da Guiné-Bissau, estivera um ano interno no CNA. Saíra espavorido depois de um enfrentamento com um colega mais idoso. A mãe veio para Lisboa e ele também. O refeitório era um espaço pulcro e a comida era boa. Os Pavilhões que albergavam as aulas eram espaçosos, novos e luminosos. Era um centro cuidado e tratado ao milímetro. O director do liceu, naquela época, e depois, ao falecimento dos seus Pais, director do Colégio foi uma figura muito influente no Ensino em Portugal. Faleceu, repentinamente, há dois anos aproximadamente; chamava-se: Doutor Federico Valsassina; Matemático.

Encontrava-me bem; gostava de ir ao colégio. Mas, a minha actividade física afogava a minha actividade tipicamente escolar; então, a minha família, assessorou-se, maldita hora, e foi aconselhada na direcção de Tomar. A vantagem, disseram, residia no isolamento e portanto – forçosamente – teria maior concentração no estudo… Em Tomar não tive uma coisa, nem outra. Não tive nada para além de amigos – mesmo que nunca mais os encontre – que estarão eternamente na minha memória e no meu coração.

Capítulo 1

A porta fechou-se nas minhas costas. Olhei em frente. Um muro mal-encarado enfeitado com arames farpados impunha-se sobre a correria dos internos. A primeira imagem do Colégio não podia ser mais terrorífica. A minha primeira sentença não poderia ser mais verdadeira: “ estou lixado.”

Passaram os dias e aprendi a queimar energias e sonhos a correr atrás de uma bola. Passaram os dias e soube que se podia ser prefeito mal sabendo ler. A vara mágica da sabedoria dos prefeitos chamava-se: estalada. Fui iniciando-me nos códigos com pausa e espanto. Talvez, o mais cruel era o infringido pelos próprios colegas ao abrigo da prática-tradição académica. Mas, quem permitia e alentava essa prática crua e estúpida não só era mais cruel; era bastante mais animal. Aqueles jovens não eram mais que o reflexo da burrice dos adultos. Hoje, essa forma de festejar a tradição chamar-se-ia: acosso escolar. Está condenado. A Voz de abaixa a cabeça soava com domínio e humilhação. O bater da colher de pau (na cabeça, nem mais, nem menos…) era o castigo e o direito que um mequetrefe tinha sobre outro mequetrefe. Era a barbárie. A tradição abrigava o direito a ser selvagem com o teu semelhante. O valor humano como conceito nesta tradição é nulo. Não se ensina a ninguém a receber o seu semelhante com práticas de submetimento. O valor, o humano é abrir-lhe os braços para que se sinta querido e bem recebido. Eram três meses de suplício. O choque da adaptação não podia ser mais inumano. O trauma de sair à rua coroado era marcante. O Colégio não merecia fechar pelo que fechou, mas, por estas e por outros merecia ser fechado e bem fechado. Os “ocupas” estenderam os pés sobre as carteiras para outros fins e não para abolir, ao som da Liberdade do 25 de Abril, o horror pedagógico que  reinava no CNA.

 

Capítulo 2

 

A excepção como diz o filósofo espanhol Gustavo Bueno não confirma a regra; rompe-a porque nos diz que não existe tal regra. Por isso, os professores que me aportaram o que deve aportar um professor: sabedoria, não rompem a regra da grande maioria que não aportava mais que atitudes soberbas ou brutalidade, eram simplesmente diferentes naquele contexto interno e absolutamente normais no contexto externo ou sociedade da segunda metade dos anos 60 do século passado. Vejo para o passado com olhos de ver e não com olhos de auto-engano ou adulação não explicada e quando vejo, encontro-me com o Padre José Guilherme que para além de Deus ou do Diabo, sabia falar de muitas mais coisas e ensinava desde as pequenezes do dia-a-dia aos mais tenros valores sociais e existenciais. Continuo a ver e tropeço-me com o Dr. Nogueira que me transmitiu saber e gosto pela Literatura e o seu amplo contexto de expressão e germinação que passam pela sociologia dos costumes, pela História, pela Filosofia, pelos psicologismos, pelos desejos, pela imaginação e pela rebeldia ou vida do próprio autor e a sua época.

No entanto, infelizmente, não tive só os dois professores anteriormente mencionados. Tive mais e entre os outros, existem três que sobrevoavam o cúmulo da brutalidade e também da inutilidade. O primeiro deles todos tinha de alcunha o nome do sátrapa que governava Portugal: Salazar. Era a sua viva imagem. Era coronel e dizia a lenda que durante a libertação de Goa, Damão e Dío pela sua gente legítima, os hindus, fora encontrado, preso de pânico, subido a uma árvore. Mas, ainda que tivesse tratamento de coronel só me leccionou Matemática no 3 ano. Com este “ilustre matemático” tive um pequeno desentendimento que me deu para ver o talante do Director Raul Lopes. Estava o ínclito professor com um colega no quadro à volta de um problema de conjuntos quando o senhor Coronel Salazar se engana. O desentendimento estava a provocar trifurca e este tipo de despesas sempre era o aluno que pagava. Apercebi-me do erro; no ano anterior, extra programa, o Dr. Catarino trabalhara bem connosco esse tipo de questões. Então, querendo ser justiceiro e simultaneamente dar uma boa cachaporrada psicológica no militar, levantei-me e disse: quem está enganado é o Sr. Coronel… Armou-se “zum-zum” na sala. O colega que estava no estrado (um rapaz da Guiné-Bissau; era alto; forte e tinha, já naquela idade, toques de alopecia. Como de tantos outros, ainda que retenha a cara, não recordo o nome.) respirou aliviado porque os dardos do professor mudaram de alvo. Fui chamado ao estrado com autoridade e raiva. Fui intimado a resolver o problema e assim o fiz; o Coronel “Salazar” tentou desmentir-me. E ao Zeca das bolinhas e das meninas, ontem e hoje, tendo razão e sabendo, ninguém desmente. Pode desparecer o mundo, mas, o Zequinha das garotas não se cala quando tem argumentos. O processo dialéctico foi forte e outro colega meteu também a pá no forno para aquecer. O Salazar rebentava de furor. Saiu-se, finalmente, pela tangente e disse: amanhã quero os três aqui para resolver os seguintes problemas… Respondi: se me chama amanhã por culpa disto; não lhe respondo. No dia seguinte ou na próxima aula, entrou o professor com a cara do sátrapa e de imediato disse: Montero ao estrado. O tal dito cujo Montero que cresceu com leite de cabra, levantou-se e foi para o estrado. O coronel mandou-me fazer o problema. Neguei-me. E voltei-me a negar. E por se era pouca a música continuei a negar-me. Os dois colegas atingidos na aula anterior também foram convidados pelo Salazar para somar-se à dança do Vira milho…

Negamo-nos.

O Salazar (honra lhe seja feita: não nos tocou.) expulsou-nos da aula mas, fazendo alguma recomendação a alguém – talvez a um prefeito – e fomos encaminhados para o chefe dos prefeitos Curinha (o tal que a direcção do pós-CNA despromoveu e colocou como perfeito de sala substituindo-o pelo prefeito mais áspero e menos querido do antigo CNA: o Pinto.). Narramos o caso. O Curinha, com ar sério, disse: Vamos ao Dr. Raul Lopes.

O Curinha entrou e deu-lhe a versão do professor como lhe correspondia, mas, salvaguardou e mencionou a nossa versão.

O Dr. Raul Lopes mandou-nos entrar; ficamos frente a frente com ele. Respirava-se mal. A figura pequena mas, ampla de ombros e formas do Dr. Raul Lopes impunha. Ouviu a nossa versão; a versão que lhe dei e que foi confirmada a coro pelos dois colegas. Mandou-nos sair. Ficamos à espera. Chegou, passado um tempo, o coronel com a alcunha de Salazar. Esteve reunido com o Director. Finalmente, fomos chamados. Entramos. O já pestilento Salazar continuava com a sua versão. Entrei em discórdia com o nome que a maioria arrasadora de portugueses não quer recordar.

O Dr. Raul, virando-se para mim, perguntou-me: como sabes os conjuntos?

– O Dr. Catarino, o ano passado, no 2 ano, deu-nos tudo isso…

O Dr. Raul ficou sério se é que já não estava seríssimo. Olhou para o Salazar. O Salazar veio-se abaixo e reconheceu o seu erro.

Mandou-nos embora e disse-nos que solucionaria o nosso caso, entretanto, não iriamos às aulas do Salazar. A fotografia do Sátrapa ficou dentro. Não sei que falaram, nem transcendeu nada. Quando a música virava ronca os alunos (por muito que se fabule agora…) não sabíamos nada; nada e menos ainda outras coisas mais privadas ou íntimas. O dado real é o seguinte: no ano seguinte o dito cujo coronel não deu aulas no CNA, nem foi visto por perto… Aos alunos, aos três, separou-nos; eu dei, então, com os ossos ao tal 3ª A e os outros dois colegas foram cada um para uma turma diferente.

Durante o acontecimento conheci o Dr. Raul Lopes. Não era, nem foi um pedagogo, nem nada que se pareça a um pedagogo, mas, era das pessoas que tinha- talvez a que mais- sentido do arbítrio e da justiça no meio daquela selva rangente.

 

Capítulo 3

Vejo-me e observo que as minhas referências sobre os professores não vão além do 4 ano. O quinto ano, nesse aspecto, é um ano que não existe. No entanto, durante o 5 ano tive aulas com o Dr. Raul Lopes e também com o seu amigo que leccionava Português. Mas, nada ficou além das suas figuras. O Dr. Raul Lopes, ao ser o Director do Colégio, era um homem cheio de lendas que iam desde a sua etapa de Coimbra como estudante até aos últimos dias. A sua figura sempre era situada no epicentro da lenda. Devo dizer que além das reuniões onde estava a minha família a interessar-se pela minha evolução, pouco contacto tive com ele. A minha memória só me fala de mais duas reuniões onde, frente a frente, estava a figura do Director e a figura do aluno.

No entanto, os primeiros anos foram férteis em figuras para uma boa comédia de rua. Talvez, ao som dos tempos, tivéssemos Hapennigs sem nos aperceber de nada. Talvez, se deva, também, ao choque brutal que tive com aquela realidade sui generis. Evidentemente, o Coronel Alvarenga (graduação que foi rebaixada por um colega, mas, ao reter na minha memória esse tratamento não será agora que o transformarei em soldado raso, sargento ou major.) ocupa muitas das cenas imortais daquele Colégio. Além do anedótico e do humor que provocava a sua aselhice pouco se pode dizer deste professor. Como síntese posso dizer que era um mal-educado e um violento; o tratamento de “Ò Minha Besta “que lhe dedicava aos alunos fala por si. Logicamente, tomávamos a devida e merecida vingança. Tínhamos como nossa principal aliada a aselhice que o caracterizava. E também tínhamos a neurose típica de quem vive entre muros para passar-nos 4 limites nessa vingança. Nos, os alunos, não sei se numa aula do 3 ou 4 ano, também agimos violentamente. Um belo dia, pretendeu zurrar num colega que estava perto de mim. Como que atraídos por um íman, levantamo-nos os próximos. Rodeamos com os nossos braços o professor e ao grito de “não lhe bata; não lhe bata…” tínhamos o pobre homem imobilizado. Nisto, chegou do fundo da sala um colega de Moçambique; natural do Maputo; de nome José Luís e de apelido, creio recordar, Rodrigues – era um rapaz espigado; seco de carnes; rápido de movimentos; inteligente. – Que se uniu ao abraço inibidor, mas, somou ao acto umas lindas e mais que lindas pisadelas, fortes e bem fortes, no velho militar. O coronel Alvarenga berrava; nós, apercebendo-nos do facto, ainda mais gritávamos: “ Não lhe bata; não lhe bata…” este homem de idade avançada esteve retido ao mesmo tempo que era agredido uns bons minutos…

Um par de anos antes e depois ser-me-ia impossível imaginar-me metido numa trifurca violenta contra um professor. Este acto não é do meu agrado quando o recordo porque me apercebo que naquela altura e com aquele tempo de estância no CNA, já estava num grau alto de animalização. Perdera as maneiras. Era mais um que louvava o cajado como elemento dialéctico.

Para esquecer; para superar…

Capítulo 4

Não sei como seria classificado hoje este professor, mas, calculo. Sei que não daria aulas a não ser que existisse alguma escola num buraco escondido da montanha mais montanha imaginada. Sei que todos sabem de quem falo sem o ter mencionado: Dete-Dete. Professor de Inglês; açoriano e herói de Coimbra. É um professor indiscritível e fartamente adjectivável. Cruel. Chicoteador. Insensível á dor de uma criança. Em si era uma figura bizarra; cilíndrico. Tinha a poupa espigada que lhe emprestava um ar avesso. O professor mais detestável que conheci. Não me recordo o motivo que gerou a nossa mútua aversão. No entanto, sei que uma semana depois de ter aulas com ele já sentia aversão. Penso que nunca me tocou. Mas, vi-o tocar e retocar a cara e o corpo de mais de um colega. E não era um estalo, não… Eram estalos; eram pauladas; era violência extrema. Era violência psicológica. Se a ancestral Universidade de Coimbra produzia este tipo de professores, Coimbra como Universidade, viveu uma época de Interregno. Se lhe conto aos meus filhos ou a um jovem desta época como era este professor, perguntar-me-á:

– Que bebeste ao almoço?..

Responder-lhe-ei: Nada; então, o jovem rir-se-á de mim. Se por ventura é um jovem espanhol que sabe que estudei em escolas privadas; dir-me-á: “y tu padres te mandaron a um colégio de pago para que te dieran mamporros?.. “

Felizmente, hoje, já não existe este tipo de professor. Vamos melhorando.

Capítulo 5

Existia um professor baixinho; cara risonha que via todos os dias no corredor mais ou menos na galhofa com os alunos que conhecia. Parece-me que se tratava do Dr. Alves ou Pica-pau. Este homem faleceu. Estávamos às portas das festas. A Direcção do Colégio decretou uma espécie de luto onde a praxe ficava suspensa e as famosas fugas ficavam proibidas. Um tal comité da praxe, em princípio, negou-se. Deram-se uma espécie de consultas boca-a-boca e os alunos-veteranos estávamos decididos a dizer: Não; pretendíamos manter a ditosa tradição. Tudo estava encaminhado para a rebeldia quando o ditoso comité da Praxe cede e aceita as directrizes institucionais. No entanto, um grupo de onze alunos resolve manter a tradição e continuou com os preparativos da sua fuga. Tornava-se mais difícil e seria importante não ser apanhado. Teríamos que desparecer durante a noite e como mandavam as regras, depois da meia-noite. Teríamos que saltar do quarto para a rua e desaparecer da cidade antes que o Sol nascesse. Estávamos no andar do Manuel Faia. Até ao tecto do que creio recordar que era a enfermaria ou alguma dependência logística que estava por ali, havia dois andares. Arranjamos uns cordéis relativamente fortes e demo-nos ao trabalho de os unir. Não pensamos nos nós ou pensamos, mas, não tivemos em conta o efeito dos nós nas nossas mãos. Passada a meia-noite os onze predestinados reunimo-nos no meu quarto. O meu quarto fugiu em pleno, menos, o necessário colaborador que ficava para aguentar a cama e desatar a corda e manda-la pela janela fora. Adianto, desta fuga, três nomes; dos outros nomes… não me lembro; pode ser que um dia nos juntemos aqui ou numa almoçarada e venham à luz do dia: um era eu; outro era o Hélder F. e o outro era o homem para tudo: J. Manuel L. Sousa. Passada a meia-noite, desparafusamos a janela; atamos o cordel-corda a uma cama e toca para o telhado daquele andar rasteirinho. Eu e vários dos aventureiros quando chegamos aquele telhado tínhamos as gemas dos dedos destroçadas pelos nós do cordel-corda. Era difícil agarrar bem e chegamos todos ao tejadilho resvalando e as gemas padeceram seriamente a acção. Desse rés-do-chão chegamos à rua deslizando-nos pelos canos que escoavam a água da chuva. Com os pés já bem assentes na estrada começou, então, o correr sigiloso caminho da estação para apanhar o primeiro comboio para Torres Novas. Lá fomos olhando ou sem olhar para as nossas feridas mãos. Apanhamos o comboio muito cedo e ficamos muito felizes porque o frio estava a fazer das suas nas feridas. Chegamos a Torres Novas e como estava programado, fomos rio acima para estar bem protegidos das intenções malévolas do caça-fugitivos Pinto. Caminhamos. Depois de andar um bocado encontramos uma casa-bar à beira-rio que tinha conservas e outras coisas para abastecer os pescadores. Juntamos os trocos e compramos as conservas que queríamos e penso que mais alguma coisa como o pão. Quando chegou a hora do almoço montamos o nosso pic-nic. As sardinhas em tomate que comi souberam-me a glória. Ainda hoje recordo a satisfação que senti. Foi-se fazendo noite e fomos regressando, cautelosamente, a Torres Novas para regressar e entrar no Colégio antes das aulas, para isso, teríamos que estar aptos para enfiarmo-nos entre os alunos externos. Dormimos aquela noite num descampado onde havia carros meios abandonados. Repartimo-nos em vários carros. Eu dormi num Citroen. Pela manhazinha lá chegamos a Tomar e, pé ante pé, fomos aproximando-nos da porta traseira por onde entravam os alunos externos. Entramos. Sentimos como o Pinto chuchara o dedo. As feridas doíam. Mal entrei num corredor o calor parece que beijou as minhas feridas e senti-me aliviado. Mas, eilaí-eilaó !!!! Finalmente, estávamos debaixo do olho…Fomos direitinhos para o escritório do Doutor Raul Lopes.

A táctica consistia em dizer que não sabíamos nada da suspensão da praxe.

O Doutor Raul, semblante sério, estava com ar de quem puxaria da vara mágica e a terra tremeria. CAIU CASTIGO!!!!!!!!! Mas, a “ minha memória selectiva” não me sabe dizer bem a totalidade do castigo. Uma semana de estudos de meia-noite caiu com toda a certeza, certezinha; um fim-de-semana sem sair também caiu. No entanto, creio que foi desta feita que fui (fomos) parar a um quarto-cela. Recordo-me sentado no chão numa sala isolada, portanto, também deve ter caído “isolamento”. Não recordo outra ocasião onde o castigo possível fosse: “estar de cana.”

Hoje, vendo-me e revendo-me, sinto-me satisfeito por ter desobedecido tanto à instituição como ao tal comité da praxe.

Capitulo 6

Finalmente, um dia, acordei em Lisboa sem ter que regressar ao CNA. Andava e não andava. Saia de casa pela manhã e percorria a Praça do Rossio; sentia-me como se tivesse recuperado o paraíso. Comecei a fazer o que queria e desejava; comecei a arquitectar a minha vida. O temor que estava entranhado na vida tomarense, transformara-se em alegria e espírito de curiosidade plena. Comecei a comprar livros como quem compra tremoços numa feira: em saco e a peso. O cinema não vivia sem mim. Não passaram três meses e já tinha a minha tertúlia instalada no Café Ribatejano. Chegaram as primeiras visitas a exposições; chegou o Teatro. Chegaram os passeios em barco e em grupo a Cacilhas para beber umas imperiais bem frescas. Não conhecia o tédio. Foi das épocas que mais felicidade senti.

O CNA estava embrulhado e guardado na prateleira da parte mais escura da minha livraria. Passei a página sem nenhuma classe de cerimónia. Unicamente, notava a ausência dos colegas e amigos mais próximos. Gostar-me-ia tê-los como participes do meu novo estar e ser na vida. Não sei se escrevi alguma vez ao Hélder F. Tive um processo de esquecimento acelerado. Passados poucos anos, quando o Victor O. se uniu, a diário, à tertúlia do Café Ribatejano, não recordava muitas das coisas que alguma vez, esporadicamente, me mencionava. No inverno, em Dezembro, fui visitado pelo Casquinha. Senti alegria plena; fomos, quão gabarolas arvorados em machos, ao Intendente. Falamos; não deixamos de falar um segundo. Só respiramos um bocado quando sentados no bar, a beber uma cerveja, fomos abordados por duas donzelas. Ele falava-me da sua vida em Coimbra e eu falava-lhe da minha vida em Lisboa. Ficamos de encontrar-nos. Nunca mais nos encontramos ainda que durante dois anos sabíamos um do outro e mandávamos mensagens através de um amigo comum.

Cinco ou seis anos depois de sair do CNA tive como um processo de introspecção e passei a pente fino a essência da minha vida em Tomar. Conclui que não fora tempo perdido porque o tempo não se perde, vive-se, mas, pensei que vivi coisas e situações perfeitamente evitáveis e desnecessárias (inclusivamente nefastas) para a minha formação como ser humano. Passados uns dez anos conheci um homem que vivia no castelo de Sesimbra (segundo estou informado, no castelo, fizeram uma espécie de museu ou exposição permanente em sua honra.) chamava-se Rafael Monteiro. Falamos do humano e do divino. Era um discípulo do mestre Agostinho da Silva (de quem me deu o número de telefone e escreveu uma cartinha para ser recebido.) e amigo do António Telmo e seu grupo. Neste grupo de amigos e cúmplices estava um ex-aluno do CNA. Então, veio à baila o colégio e a certa altura o Rafael Monteiro disse: é um rapaz inteligente e culto, mas, tem alguma coisa inexplicável dentro. Parece-me que tu também tens um certo pouso dentro semelhante ao dele. Não o sabia explicar. Eu também não o soube explicar. Hoje, ainda que não o saiba explicar, parece-me que é uma pequena (ou grande) dor (a palavra exacta talvez seja mágoa) neurótica que levamos aninhada nas nossas vísceras.

O CNA foi parte da minha vida, mas, não é a minha vida. Thomar, com agá como gosto de escrever por uma questão mais que estética, é a minha terra adoptiva. E as terras visitam-se com carinho e periodicamente. Thomar aturar-me-á enquanto viva.

Fim


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  1. Outubro 9, 2011 às 2:13 pm

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