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Posts Tagged ‘Conto extremadamente Poético’

Exerto do Conto extremadamente poético – josé luís montero

Aquilino Ribeiro é um dicionário; Começou a Viagem não passa de um livro de falsa viagem. Fumo; mal gasto o tempo a desenhar bolinhas a voar e a esfumar-se. Como; inverto o prazer. Amo; aniquilo o tempo. Apago o cigarro; descalço-me; levanto-me; visto as cuecas. Tenho um amigo que se chama Pascácio; acontece. Volto a fumar; dispo as cuecas. Quero praia; gosto de chuva. Surrealismo por extenso; banha na frigideira. Fialho de Almeida percebeu que a Galiza era um Continente. Eu não sou galego; nasci na Galiza. Tenho um amigo português que é galego; não sabe; pensa que veio de Paris; entrou em Portugal por Vilar Formoso. Amanhã é domingo, hoje é sexta-feira. Está a passar uma carroça cheia de cenouras. Quero estudar Italiano.

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Exerto do Conto extremadamente Poético – josé luís montero

Quando se ama, habita-se no carro manso da Vida. Perde-se; ganha-se; alcança-se. Deixa-se de ser sendo. Perdura-se. Canta-se a chorar; chora-se a cantar; rumia-se. Quando sim é sim. Não. Paradoxo. Metáfora. Texto de escriba sobre os poros da pele. Renuncia. Abrenuncia. Caminho de flores sem flores. Píncaro. Poema; poesia verdadeira. Poema sem Poeta. Vida. Xica! Urra! Porra! Corro! Morro.

Exerto do Conto extremadamente Poético – josé luís montero

O cowboy é mansinho. A planície verdejante abranda-lhe a testosterona. O macho fica semi-homem e o que se perde não se encontra; mais um perdido e confundido. O boi deixa de ser o guiado; o cavicórneo governa-se enquanto o cowboy se procura. Não se encontra; ganha asas. Não bate asas; não ganha voo. A pistola que usa para matar cobras enferruja-se. As balas esvaziam-se. As botas gastam-se. O cavalo desaparece; a planície engole o homem dos bois. A Natureza ganha Razão. O Sol torna-se manto. O boi faz-se livre.

josé luís montero

Exerto do Conto extremadamente Poético – josé luís montero

Tresanda. O cheiro invade as pupilas do morgado. O marialva espojou-se entre dádivas celestiais e palha apodrecida da vacaria. Neófitas no amor; veteranas no palheiro regougam misérias nas ventas do mamífero selado. Apimentam-se na eira da animalidade. Renomeiam. Inferem. Estrumam a alma do morgado; chicoteiam a carne. Desfazem o senhorio. Aprincesam-se. Redopiam a altivez. Estrangalham o berço de seda. Matam o morgado.

josé luís montero

Exerto do Conto extremadamente Poético – josé luís montero

Estou descalço. A maré invade o meu quintal. Vejo uma mulher nua. Escondo-me no vitral do Sagrado Coração. Calço umas peúgas-sapatos e subo a encosta do desleixo. Quero ser filósofo no pátio do manicómio; sodomizar o Psiquiatra com o dedo indicativo. Leio Poesia de Cordel; desejo a poetisa porque Poesia não há. Um dia qualquer é oferecido o Prémio Camões a uma destas poetisas ou a alguma variante masculina. A esta hora chove no Japão; as espinhas dos peixes invadem as sargetas. Besunto-me no meio de cogumelos venenosos. Faço de parteiro de uma rã. Vejo um governante; peço asilo no Deserto. Foda-se; a Vida virou cor-de-rosa.

josé luís montero

Exerto do Conto extremadamente Poético – josé luís montero

Do avesso; virado para o cu do espelho. A escrever poesias para o céu. Sentado com o olhar no horizonte das cuecas de uma mulher sem freios. Prosando rimas impossíveis. Arregaçando as mangas; a sonhar com uma estátua à porta do cemitério. A comer hortaliças dia e noite para fugir à morte. A desconhecer o sentido da morte sem viver a Vida. Enfardando a Alma com panos de Cachemira. A repousar a leitura de todos os poetas loucos abraçado ao orgasmo. Negando a negação da verdade. A sentir o impossível. Clamando pela revolução dos despavoridos. A rir-me das cloacas dos Estados. Desejando a Mulher. A caminhar pelas ruas da Lua. Apontando as coxas impossíveis. Arrastando o desejo para debaixo da cama. Pensando no mito de Deus ao ver a cara de um foragido. A pregar pregos nas nuvens. Queimando toda a Poesia feita.

Exerto do Conto extremadamente Poético – josé luís montero

O dia inteiro. A Vida encalhada. A osmose da merda. A Poesia na mão javarda. O vento que sopra. A beleza que voa. O João Baptista afogado na pia batismal. A Luxuria como bem moral. Os camelos arvorados a comer feno. O amor de fim- de-semana numa carruagem. Um descamisado à mesa da marquesa. O orgasmo da beata. Um saloio na presidência. Um cavalo no generalato. Uma avestruz no self-service. O Surrealismo virou saloio numa tarde de diarreia em Lisboa. Como coxas e nádegas no espeto. Espiralo ventosidades. Escrevo cartas diplomáticas. Tenho um pastel de nata. Enfio carapuças.